Bem vindo ao site da Bibliteca Escolar Daniel de Matos

 

Há outro mundo.
     É o mundo da solidão que a leitura dos livros ou a audição da música requerem...

No mês de Agosto de 1999 desembarquei seis caixas de Épineuil na margem do Yonne e dois sacos de correio de juta cinzenta cheios de livros.
Arrastei-os ao longo do relvado.
O Verão começava bem. Era preciso ter esperança de não ver ninguém.
Nem um homem. Nem uma criança. Nem sequer as vespas.
Nem mesmo os besouros enormes e ferozes quando lemos na espreguiçadeira de lona, aberta no relvado ou arrastada mais longe, por cima das flores roliças e brancas dos trevos. (…).
Nem sequer, no interior dos sonhos, pior que os mosquitos fêmeas, a memória.
Nem sequer a própria linguagem.
Não havia um avião que atravessasse o céu. (…).
Nem um galo (…).
Nem um baile.
Nem o menor simulacro de alegria à minha volta (…) deitando tudo para trás das costas. A felicidade crescia. Lia. A felicidade devorava-me.
Li todo o Verão. A felicidade devorou-me todo o Verão.

Pascal Quignard “As Sombras Errantes”, Algés, Gótica, 2003; pp. 78-79

 
 
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